Brasileiro tem criatividade nata, mas falta apoio para os inventores

By terça-feira, agosto 18, 2015 , ,

        Até conhecer o trabalho de Paulo Gannam, eu nunca tinha pensado que inventor poderia ser uma profissão. De fato, esse potencial inventor não é muito difundido no ensino brasileiro e nós não somos estimulados a criar soluções criativas para problemas cotidianos. Por isso, quem investe nessa área tende a se destacar, mas enfrenta dificuldades para transformar suas ideias em algo concreto. A entrevista com Gannam é uma boa forma de conhecer mais sobre esse universo e ajudar a divulgar um trabalho diferenciado e necessário.


Paulo Gannam


Paulo Gannam é formado em jornalismo pela Universidade de Taubaté e especialista em dependência química pelo Grupo Interdisciplinar de Estudos em Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Já teve alguns trabalhos nessas áreas (assessoria de imprensa, auxiliar em centro de recuperação de dependentes químicos e depois supervisor de Censo pelo IBGE), mas nos últimos quatro anos tem se dedicado à criação, solicitação de patente, negociação e busca pela comercialização de produtos no mercado através de parcerias com empresas já estabelecidas. Dispensa 70% do seu tempo com essa atividade e no restante atua com administração imobiliária.


Jornalista sem Pauta - Confesso que ao ler sobre seu trabalho, fiquei intrigada e pensando: “o que é ser um inventor?” então, se puder matar minha curiosidade...

Paulo Gannam - Ser inventor é olhar constantemente para o mundo, enxergar seus problemas e procurar ativamente soluções para resolvê-los – sozinho ou com a ajuda de outras pessoas. É ter um temperamento tipicamente irritadiço, insatisfeito com as coisas do jeito que estão e, pela via da imaginação, articular produtos, amadurecer ideias até se encontrar o melhor caminho entre vários para atingir o objetivo de “melhorar as coisas”. 


JP - De onde veio essa inspiração incomum para ser inventor? Como surgem as suas invenções?

PG - Foi um processo. Eu estava no terceiro ano de jornalismo. Tinha um blog e redigia artigos sobre os mais variados temas. Certa vez, postei um artigo intitulado “Obra-prima de borracha”, que destacava os benefícios de se trazer a galocha de volta ao mercado, dando-lhe novas feições e design, pelo benefício em evitar que nossos pés e calçados se molhassem durante as chuvas. Essa ideia surgiu depois de eu ter sido apresentado à galocha por um tio, o Toninho Gannam, que a trouxe de seu sítio. Estava bem acabada, mas trazendo benefícios que eu sempre achei que nossos calçados deveriam voltar a agregar. Creio que ali estava começando a nascer esta verve inventiva. 

Anos mais tarde, sem exercer a profissão jornalística, nas horas vagas o que eu mais fazia era tomar açaí na tigela. Passei a diferenciar os melhores dos piores açaís na tigela. Resolvi passar a fazer açaí na tigela em casa e usei meus familiares como cobaias [risos]. Quis montar um negócio de açaí com base naquele creme com consistência “dos deuses” que eu tinha conseguido criar. Mas percebi que poderia agilizar o processo criando uma máquina que fizesse esse trabalho. 

Com a ajuda de um técnico, passei quase um ano tentando construir o aparelho, mas o máximo que conseguimos foram sucessivas explosões da engenhoca [risos]. Sem dinheiro para investir, precisei abandonar a ideia. Todavia, esse processo imaginativo de buscar alternativas para o desenvolvimento da máquina, despertou minha sensibilidade inventiva. A partir de então, a “porteira se abriu” e não parei mais de ter ideias. Elas surgem de modo aparentemente aleatório, mas também a partir da observação consciente de algum problema ou necessidade cotidiana identificada. 


JP - Criar algo não parece tarefa fácil, para ser feita no horário de almoço, então posso dizer que a ociosidade criativa é importante para exercer essa atividade?

PG - As ideias costumam surgir espontaneamente e com bastante ócio sim, pois o ócio lhe permite entrar numa “frequência inventiva”, em que você passa a observar o funcionamento das coisas e o comportamento das pessoas de um modo bem distinto. Fica mais sensível a captar necessidades dos indivíduos e a deficiência do funcionamento de certos objetos. Eu sempre digo que brainstorming vem com uma boa dose de “vagabundagem”. Sem pressão, sem nenhum patrão pronto para pendurar a corda no seu pescoço se você não conseguir resolver o problema dele para ontem [risos]. 

Mas isso não quer dizer que não dê para criar algo no almoço [risos]. Qualquer momento da vida é um universo de possibilidades para se identificar algo novo. No almoço há o comportamento das pessoas, a qualidade da comida, dos talheres, a forma como se é servido, todo o material de cozinha, modo de preparo. Tudo isso lhe fornece padrões que podem ou não ser bons e que você pode ou não querer mudar, melhorar, agilizar, tornar mais divertido, mais eficiente, menos incômodo...


JP - Imagino que o processo para transformar uma invenção em um protótipo seja demorado e, talvez, isso influencie em uma falta da cultura de criação. É isso mesmo?

PG - Com certeza. Meses ou anos podem ser consumidos até você chegar a um produto escalável, a uma verdadeira inovação. E isso requer dinheiro, perseverança, técnica, parcerias... O brasileiro é muito mais criativo que o norte-americano, por exemplo, só que o norte-americano aprendeu desde cedo a ser mais “comercial”, ou seja, sabem ganhar dinheiro com o que criam, ou só tendem a criar aquilo que pode de fato ser viável para colocar no mercado.

No Brasil, há pessoas com muita sensibilidade para a criação, não por formação, mas por vocação! Pessoas que seriam capazes de, com a parceria certa, criar, fabricar e comercializar uma infinidade de serviços/produtos. O problema é que são tipos, muitas vezes anônimos, que não têm conhecimento técnico, muito menos estrutura laboratorial para desenvolver sua ideia e apresentá-la a contento a um mercado que já não é tão receptivo, por várias razões. 

Não há suporte legítimo para o inventor independente, como recursos para que ele possa realizar um estudo de viabilidade técnica e econômica de seu projeto e para o desenvolvimento de um protótipo físico. Há quem sempre sugira instituições como o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), o Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e Fundações Estaduais de Amparo ao Ensino e à Pesquisa.

O problema é que esses programas são voltados apenas para empresas (pessoa jurídica). Dessa forma, o foco deixa de ser a inovação e qualidade do projeto para ser a própria empresa. Ou seja, por mais que uma invenção possa ajudar as pessoas e trazer muito imposto ao país, graças aos royalties gerados por uma invenção inovadora blindada com a patente, os inventores ficam à mercê da vontade do patrocinador investir ou não.


JP - Dá para ganhar dinheiro sendo inventor no Brasil? É fácil conseguir patrocinadores?

PG - Dá sim, mas não é moleza não. O inventor pode vender/licenciar sua patente para empresas já estabelecidas ou ainda realizar sociedade com algum outro empreendedor. Mas veja o cenário: de acordo com a Organização Mundial de Propriedade Intelectual, mais de 60% de tudo o que foi inventado ou aperfeiçoado no mundo até hoje foi a partir de inventores autônomos. Só que menos de 3% de tudo o que é inventado no mundo, seja por inventores, seja por empresas nascentes, seja por empresas amadurecidas, consegue chegar ao mercado. 

No Brasil, não há a preocupação com uma boa ideia vinda de anônimos, pessoas físicas. Se você não está conveniado a um centro de pesquisa, universidade ou qualquer outra empresa privada, não receberá um centavo do governo e terá de trilhar um caminho solitário, pedregoso e quase sempre demorado até encontrar – se encontrar – um parceiro para seu projeto. 

É curioso, mas às vezes ocorre de você apresentar um projeto a um investidor ou empresa, e a pergunta recorrente ser: “De que empresa você é? Já tem algum produto de sucesso no mercado?”. E quando você diz que é inventor, pessoa física, já existe uma reação condicionada a encurtar a conversa, ao invés de se analisar a proposta objetivamente. Isso é mais comum em contatos telefônicos diretos, sem ninguém para fazer a ponte, em que a subjetividade e o “QI” (quem indica) imperam. 

Além disso, também por conta da crise econômica e política que estamos atravessando, o empresário está mais conservador, e está preferindo trabalhar com produtos que lhe deem retorno de curto e, no máximo, médio prazo. 

Uma nova ideia requer investimento em maquinário, desenvolvimento e adaptações dos modelos do produto, planejamento de marketing, e isso tudo faz a empresa sair do roteiro que estava planejado, podendo levar alguns anos até que, de fato, o produto seja lançado no mercado e traga o retorno desejado. 

O que alguns investidores precisam entender é o fato de que uma patente, se internacionalizada pelo inventor, através dos mecanismos legais disponíveis, pode ser explorada em outros países também, com exclusividade.

Há ainda empresas cuja política não admite a entrada de ideias vindas de fora por já possuírem departamentos fechados de pesquisa e desenvolvimento de novos produtos. É compreensível o raciocínio, mas talvez uma ideia externa possa trazer melhores resultados financeiros que uma interna, pode fazer com que uma empresa cresça, expanda seus negócios, e enxugue seus próprios custos em manter um departamento de P&D. 

Por outro lado, há empresas que já se adaptaram à chamada Open Innovation, que é a possibilidade de a empresa trazer invenções inovadoras e aumentar seus lucros com base em ideias oriundas de fora, aceitando que no mundo tem muitas cabeças pensantes e que ideias viáveis surgem a todo o momento dentro ou fora dessas organizações.


JP - Quais são suas principais invenções? Como está o andamento para serem comercializadas?

PG - Todas elas já estão com patente depositada no INPI e disponíveis para licenciamento. São elas, bem resumidinhas:

1- Comunicador Gannam: É um aparelhinho eletrônico de comunicação instantânea que alerta, com frases curtas e objetivas, qualquer problema/situação identificável em um veículo ou nas estradas. A comunicação é feita pelos usuários de outro veículo que também disponha do aparelho e não depende sempre de internet, cujo sinal é ruim em certos locais. Alguns exemplos de mensagens: luz de freio queimada, pneu murcho, luz de ré queimada, emergência, pessoa doente no carro, acidente/animal/deslizamento à frente, incêndios, chuva forte, etc. Também permitirá a comunicação entre órgãos de Governo e motoristas, campanhas de educação no trânsito, enfim, uma integração da comunicação, criando um clima amistoso e de espírito de ajuda pelo condicionamento. 

2- Sensor lateral para proteger rodas e pneus junto ao meio-fio: um sensor que avisa o momento em que o condutor estiver próximo de encostar o pneu ou roda na calçada, em qualquer tipo de movimento – com ou sem uso de marcha-ré. Esse é uma “mão na roda”. Muito mais simples e barato que projetos complexos e caríssimos como o Park Assist e o Intellisafe. E atende a uma necessidade de modo mais completo, se comparado com retrovisores tilt down ( aqueles que abaixam na hora que você está dando ré para estacionar).

3- Protetor de unhas para portadores de onicofagia (hábito de roer as unhas): É uma película que reveste as unhas do usuário de forma elegante e discreta, sem causar desconforto algum, pois cobre apenas as unhas sem incomodar o tato, e pode ser usada por homens e mulheres. Cerca de 19% a 45% da população, oscilando de acordo com a faixa etária, roem as unhas. 

4- Lixa para unhas três em uma: uma invenção concebida muito mais por minha cunhada do que por mim, ao observar os tipos de lixa disponíveis no mercado: Trata-se de um produto inédito no mercado, cuja extremidade é arredondada e fina. Suas funções consistem em uma parte para dar brilho e outra para lixar a superfície das unhas. Entre as pontas, no cabo dessa lixa, há uma superfície circular para lixar o contorno das unhas com diversos graus de aspereza — espessura em sua circunferência, conforme preferência do usuário. Ela tem um formato anatômico que impede esfoliações na pele logo ao lado da cutícula.


JP - Como está o andamento dos seus projetos?
PG - Já tenho o protótipo físico do aparelho comunicador (PMV) para demonstração, e prova de conceito do sensor para rodas, feita recentemente em PIC e Arduino. Espero em algumas semanas já iniciar os testes com o protetor de unhas e desenvolver a lixa. Todos estes projetos estão em fase de desenvolvimento e divulgação para que empresas do setor, caso tenham interesse, possam fabricá-los e comercializá-los.[]

Ficou interessado? Curioso? Conheça mais sobre o Paulo e seus projetos:
Email: pgannam@yahoo.com.br
Facebook: www.facebook.com/paulogannam.inventionsseekinvestors 


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