CRACK: UMA NOVA PERSPECTIVA

By domingo, julho 29, 2012 ,


Uma das drogas mais baratas disponíveis no mercado ilegal, o crack tornou-se uma alternativa fácil para muitos brasileiros. E é com essa realidade que trabalha a ONG “É de Lei”, na Cracolândia, em São Paulo. Deixando de lado o maniqueísmo, a ONG desenvolve ações de redução de danos, oferecendo melhores condições para usuários e frequentadores do local. Se você já se perguntou qual seria a razão para tantas pessoas usarem crack, saiba que os motivos podem ser muito mais profundos do que se imagina.

Para entender efetivamente o que ocorre na Cracolândia, é preciso analisar a relação do Homem com as drogas, mais que isso, é necessário definir o termo. Qualquer substância psicoativa – que altera o sistema nervoso central – é considerada droga. Dessa forma, um remédio para dor de cabeça, um chá calmante e o café que mantém acordado, são drogas, pois alteram o organismo humano.

Percebendo isso, é notório também que nós, seres humanos, utilizamos dessas substâncias diariamente sem nenhum tipo de pudor. Mas então porque agimos como se as pessoas que vivem na Cracolândia fossem menos dignas do que nós? Talvez por morarem na rua? Por roubarem? Por viverem em condições miseráveis? Se você respondeu sim para todas as perguntas anteriores, eu lhe faço outras: Quem disse que esses dependentes moram lá? Como sabe que eles roubam? Você já esteve na Cracolândia?

Pois é, grande parte dos leitores nunca passou perto da Cracolândia, ou por falta de oportunidade ou por ausência de interesse. E isso é comum, pois não entendemos aquela realidade e consequentemente não nos interessamos por ela. Também foi um susto para mim quando descobri que os freqüentadores daquele local são bem menos dependentes do crack do que parece. Na verdade muitos dos usuários dependem mais daquele “estilo” de vida do que da droga em si.

O psicólogo Marcelo Sodelli tem outro ponto de vista para o consumo de substâncias psicoativas. Para ele, a razão é existencial. “As possibilidades que temos na vida geram angústias. E cada pessoa tem um modo de lidar com elas. Alguns recorrem às drogas”. E é sob esse conceito que muitos voluntários têm procurado minimizar os danos causados pelo consumo do crack, a partir da percepção de que muitas pessoas possuem motivos psicológicos para usar o entorpecente.

Há frequentadores da Cracolândia que mantêm emprego fixo, possuem família, bens materiais, são estudados, mas escolheram fumar crack nas horas vagas ou trocaram tudo que tinham pela possibilidade de usar algo que aliviasse as angústias da vida. É claro que há aqueles que têm uma condição miserável de vida, que realmente moram nas ruas, que foram abandonados, que passam fome, que já cometeram crimes. Porém grande parte teve a oportunidade de se livrar do vício, mas por razões pessoais, preferiu a droga.

A Cracolândia tornou-se uma sociedade à margem da sociedade, com regras, manias, diferenças. Todavia sem o preconceito intrínseco às civilizações tradicionais. As pessoas lá se consideram na mesma situação e acabam sendo solidárias entre si e até com aqueles que passam pelo local evitando ver a realidade. Muitos dependentes trocam a pedra de crack por qualquer objeto e vice-versa. A maioria não admite que o vício seja responsável por roubos ou ameaças. Há quem empreste a droga para alguém em situação pior. Ou seja, há interesses mútuos caracterizados por um vício e não o contrário.

Não defendo a existência da Cracolândia, nem do vício, mas também não concordo com prisões descabidas, desrespeito, internações obrigatórias ou preconceito. Pelo simples fato de que é preciso conhecer uma realidade para, aí sim, criticá-la. Ainda assim, apenas criticar não fará com que a Cracolândia desapareça. O que defendo aqui é uma sociedade mais ciente dos problemas daquele local, pois isso permitirá o alcance de soluções práticas que mudem, de fato, a vida daquelas pessoas. E, se a prevenção e a atuação são formas de se atingir esse objetivo, talvez a proibição não.
  

*Com informações obtidas na palestra "Crack", realizada por Marcelo Sodelli e Bruno Ramos no 7º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.

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